É Leona. Mas poderia ser Odete, Nazaré, ou qualquer outra polarização do mal. Na lógica do melodrama, a figura do antagonista tem o papel de criar o obstáculo para o protagonista, na maioria dos casos uma mocinha, que sofre injustamente. O esquema já é conhecido por qualquer brasileiro, criado sob o signo dos dramas açucarados das telenovelas.

A diferença aqui é o suporte. "Leona, a assissina vingativa" é uma história gravada em celular, provavelmente editada num software livre, baixado na internet. Não há cenários, a história se passa numa casa. Não há figurino, a não ser a partir do segundo episódio da trilogia. E quase não há encadeamento. O roteiro é básico, improvisado pelos participantes da brincadeira. Mas o que importa para nós é a essência do modelo dramatico das telenovelas encontrado na história.

A despeito das qualidades tão alardeadas na internet e das ferramentas que a informática oferece, a trilogia, que se tornou famosa pelo site Youtube, segue padrões absolutamente comuns, uma receita que inclui traição, mentira, exagero de interpretação e muitas, muitas lágrimas. E acreditem, fez sucesso. São milhões de acessos, matérias em jornais e até shows em casas noturnas, encenados pelos protagonistas da história.

Jesús Martin-Barbero (1) explica que a televisão, como meio, está perdendo espaço para outras formas de emissão. Mas a mediação cultural exercida por ela continua intacta. E para ele, o melodrama é uma das formas que fala mais próximo à realidade da América Latina. Logo, é também mediação cultural.

Junte-se a isso a visão de Marshall McLuhan (2), para quem a comunicação é um grande sistema integrado, em que os novos meios não se sobrepõem aos antigos, mas atuam em concordância, em um novo sistema de atribuições. Para ele, quando há à disposição uma nova técnica, a tendência humana é para usá-la, primeiramente, com o objetivo de emitir antigos conteúdos, sem explorar o que a novidade pode oferecer.

Foi assim com o cinema, que de início, não explorava novas possibilidades de expressão, mas era usada apenas como utensílio, novidade técnica pitoresca. Os primeiros filmes eram praticamente cenas de teatro, filmadas do ângulo de um espectador, em um teatro com palco italiano. Só depois de Meliès o filme ganha novos significados, com os cortes. E posteriormente, com as técnicas de montagem, em Griffith e Eisenstein. Trato desta questão no livro "O delírio de Apolo: sobre teatro e cinema".

Assim também, consideramos a gramática da internet algo novo por ser construída, como mostra Janet Murray (3). Quais serão as características destes novos produtos? Até quando o que vemos na rede é mera reprodução (ou eco, no caso de "Leona") do que vemos na telinha? Este é o assunto do artigo que Flávia Crizanto e eu estamos escrevendo e vai estar disponível no blog em breve.

(1) MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.
(2) MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 2002.
(3) MURRAY, Janet H. Hamlet no holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Itaú Cultural/Unesp, 2003.

Assista à trilogia "Leona, a assassina vingativa":





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